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O andarilho andaluz

terça-feira 2 de outubro de 2012

 

Fíjate na marcha, que Juan Manuel Sánchez Gordillo quer passar. Se não apertar o passo, poderá perdê-lo na multidão num piscar de olhos. É que o espanhol é arisco, inquieto, quase insolente. Lidera marchas trabalhistas quilométricas, invade estações de trem, faz manifestações e discursos eloquentes nas estradas espanholas, capitaneia o Colectivo de Unidad de los Trabajadores - Bloque Andaluz de Izquierdas, o Sindicato de Obreros del Campo e o Sindicato Andaluz de Trabajadores, brada hinos revolucionários, baderna diante de Santanders, Zaras e afins, baliza ocupações campesinas enquanto ocupa uma cadeira no Parlamento de Andaluzia pelo partido Izquierda Unida. Ah, e é prefeito.

 

Desde abril de 1979, Juan Manuel Sánchez Gordillo é o alcaide de Marinaleda, cidade andaluza de 2.778 habitantes na Província de Sevilha, no sul da Espanha. Nas primeiras eleições livres após a derrocada do general Francisco Franco, em 1975, o historiador marinalenho de então 27 anos quis se arriscar na disputa municipal. "Decidimos isso em assembleia. Quiseram minha candidatura independente, então eu fui", contou Gordillo, agora com 59, em entrevista ao Aliás. Levou. Assim como levou as oito eleições seguintes logo no primeiro turno - no último pleito, em maio de 2011, teve 73% dos votos. "Minha primeira impressão ao conhecer Sánchez Gordillo? Ele não era ninguém. Era só um jovem professor, um idealista. De repente, ele se tornou um mito", lembra Diego Cañamero, de 56 anos, compañero de Gordillo há uns 40. Juntos, eles fundaram o Sindicato de Obreros del Campo, em 1976.

Gordillo já era famoso nos rincões espanhóis por diversas razões acumuladas ao longo de três décadas. Mas tais razões cruzaram as fronteiras do pueblo sevillano nos últimos tempos: no dia 7 de agosto, o prefeito incitou saques aos supermercados Carrefour (Arcos de la Frontera, Cádiz) e Mercadona (Écija, Sevilha) - Cañamero estava no Carrefour, Gordillo estava no Mercadona. Uns 400 manifestantes encheram carrinhos com açúcar, azeite, arroz, legumes, leite, pães. "A ordem era pegar itens de primeira necessidade. E só itens de primeira necessidade. Sem chocolate, nem doces, nem iogurtes", frisara Cañamero. A ideia era distribuir os alimentos aos pobres, em prol da beneficente Cocina Económica de Ferrol. "Queremos mostrar que a crise financeira tem um rosto humano. As pessoas estão perdendo tudo - seus empregos, seus lares. E muitos não têm nem o que comer", dizia Gordillo, ao justificar os saques. "Não é roubo. Roubo é o que fazem os bancos." Aí conquistou os apelidos: um novo Dom Quixote, segundo The New York Times, e um Robin Hood espanhol, para Le Monde e The Guardian. O prefeito virou herói marxista, humanista malandro, ladrão hipócrita, vândalo, o diabo - e até inspiração para camisetas da H&M, uma C&A gringa, que foram recolhidas após um dia de vitrine. O modelito trazia a ilustração de um punho segurando uma cenoura e um milho, com a frase: "Food to the people. No world hunger. Juan Manuel Sánchez Gordillo."

 

"Foi um ato simbólico de desobediência civil pacífica. Foi brilhante", considera Iolanda Prats, porta-voz do movimento Plataforma de Afectados por las Hipotecas em Valência, e uma das 50 signatárias da carta de autoinculpación, na qual manifestantes se solidarizaram e compartilharam a responsabilidade pelos saques. Sete ativistas saqueadores foram presos, mas depois liberados sob fiança. Como Cañamero e Gordillo estavam liderando as ações do lado de fora dos mercados, não foram presos em flagrante e, por isso, só receberiam uma intimação judicial a posteriori. "Verei o que faço ao receber a intimação, pois ultimamente não visitamos os juízes, já que somos condenados antes do julgamento", Gordillo disse a El País.

 

"Eu, medo? Nem de longe. Gordillo tampouco", Cañamero garante ao Aliás. O prefeito foi detido umas sete vezes em cidades vizinhas, recebeu ameaças de morte e coleciona uma pilha de processos, muitos já arquivados. (Ressalva seja feita: por ser parlamentar desde 2008, atualmente Gordillo goza de imunidade política na Espanha.) Noutros países, um impeachment iminente talvez fizesse um político pensar duas vezes antes de se enroscar em ações radicais como um arranque a supermercados. Fosse talvez a hora de pisar no freio. Mas Gordillo não quis ficar parado, arrumou a trouxinha e o megafone, convocou os companheiros e no dia 16 de agosto iniciou a marcha Andalucía en Pie, contra as medidas de austeridade do premiê Mariano Rajoy. No total foram 15 mil pessoas, 23 dias de caminhada, mais de 400 quilômetros percorridos, passando pelas principais cidades da Província da Andaluzia, como Córdoba, Granada, Málaga e Sevilha. Em Mancha Real, manifestantes se sentaram em frente ao Santander e gritaram: "Mãos ao alto! Isto é um assalto!", referindo-se ao "roubo" que atribuem aos bancos. Depois, saindo de Hornachuelos, ocuparam o Palácio de Moratalla, propriedade do duque de Segorbe e Maria da Glória de Orleans e Bragança, prima do rei Juan Carlos e bisneta da princesa Isabel. Passaram a noite por lá e, como ninguém é de ferro, aproveitaram para se refrescar na piscina nobre. Outro endereço simbólico escolhido pelos marchantes foi a Zara, do bilionário Amancio Ortega, em Granada. Ao longo da marcha, entre camisetas do movimento 15M, cartazes de Che Guevara, sombrinhas e sombreiros para enfrentar o calor de 40º do verão mediterrâneo, pés feridos, nucas queimadas e vozes enrouquecidas, a certo ponto os manifestantes foram escoltados por 2 helicópteros, 30 carros policiais e mais de 100 soldados. A trilha terminou no dia 7 de setembro em Sevilha.

 

Nas marchas, o prefeito se mistura à multidão. Gordinho, Gordillo mantém uma farta barba grisalha, talvez para disfarçar seus dentes desleixados. Tem olhos expressivos, castanhos e levemente claros, que as sobrancelhas rebeldes e as rugosas linhas de expressão não deixam notar. Quando jovem, tinha um quê do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também jovem. A voz rouca, às vezes estridente, dá ritmo ao castelhano apressado. Invariavelmente veste calças cáqui, camisa xadrez colorida e um lenço palestino kefiah em volta do pescoço, além de penduricalhos como pulseiras surradas nas cores da bandeira marinalenha. Diz que não tem carro, nem capital, nem casa própria (a ex vive com seus dois filhos maiores em Caín; o prefeito, a nova primeira-dama e o niño moram na casa dela em Marinaleda). Gordillo dispensa terno e gravata, por questões de princípio. "O povo não usa black-tie. O povo só se veste assim para festas. Bueno, então, o prefeito só usa terno em dias de festa", justifica Cañamero.

 

Assim como a maioria dos marinalenhos, o prefeito vive com 1.200 por mês, um salário decente considerando os tempos de crise, quando poucos espanhóis têm a "sorte" de receber uma remuneração mileurista (mil euros). Ali todos trabalham como uma cooperativa, principalmente no cultivo de alcachofras e azeitonas. Nas décadas de 1980 e 90, Gordillo fez campanhas para a reforma agrária, para redistribuir as terras aos campesinos. Em 1991, depois de diversas ocupações, desapropriou os 1.200 hectares da fazenda El Humoso, antes pertencente ao duque de Infantado. "A terra não é de ninguém. É como o ar, não deve pertencer a ninguém."

 

Na aldeia andaluza, as decisões são tomadas em assembleias populares. A cidadela também conta com 11 conselheiros - 9 aliados e 2 opositores, do Partido Socialista. "Marinaleda é uma pequena tentativa de superar o capitalismo. Queremos que essa experiência se espalhe pela Andaluzia e pelo mundo", diz Gordillo, sobre a cidade que se pretende um Eldorado comunista, com ilustrações de Che Guevara no lugar dos pomposos retratos da realeza espanhola, inclusive no gabinete do prefeito. "Não sei se disputaria a décima reeleição. Ainda falta tempo para isso. Agora quero pensar no presente. Quero batalhar nessa ideia internacional de que outro mundo é possível."

 

"Marinaleda é singular. Muito graças à liderança de Sánchez Gordillo, no centro dessa ’autoridade alternativa’ ", considera o antropólogo Félix Talego Vázquez, da Universidade de Sevilha. Autor de Cultura Jornalera, Poder Popular y Liderazgo Mesiánico: Antropología Política de Marinaleda, Vázquez viveu em Marinaleda nos anos 1990, enquanto fazia uma imersão antropológica no vilarejo. "Gordillo sempre diz: ’Sou o primeiro a fazer sacrifícios e o último a receber os benefícios’. E, penso eu, é verdade", conta. "Para o bem e para o mal, Sánchez Gordillo é a ponta de lança da Izquierda Unida. Muitos o apoiam, mas muitos o criticam", pondera o economista Jorge Fonseca, da Universidade de Madri.

 

Enquanto os indignados voltavam a agitar Madri, Gordillo estava enfermo, com o corpo ainda fraco depois das longas marchas sob o sol impiedoso. "Essa foi uma semana tranquila. Já estou uns 95%", disse, com a voz branda ao telefone nessa sexta-feira. E o andarilho até queria pegar a estrada novamente. "Mas Madri está a uns 500 quilômetros daqui. Não podemos estar lá, mas estamos com os indignados em espírito", ressalva Cañamero, entre uma siesta e outra.

 

Tempos atrás, Gordillo foi criticado por ter sido flagrado viajando na primeira classe com destino a Caracas. Não recusou o mimo, pois o convite e a passagem aérea foram pagos pelo governo venezuelano. "Comunista, sim. Bobo, não", ironizaram os críticos.

No fim, Gordillo se porta como um anti-herói. Adorado por muitos, detestado por outros tantos, o alcaide rebelde está no poder há décadas, defende o contrapoder e vive como autoridade na sociedade alternativa. Um paradoxo ambulante.

 

Fonte: Juliana Sayuri/O Estado de S.Paulo

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