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Brasil sem Miséria matricula 266 mil beneficiários em cursos técnicos

quarta-feira 30 de janeiro de 2013

O primeiro balanço com as ações de inclusão produtiva do programa Brasil sem Miséria, que foi divulgado segunda em Brasília, mostra que o governo Dilma Rousseff superou a meta de abertura de vagas em cursos profissionalizantes. 

 

A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, contou ao Valor que a expectativa era fechar 230 mil matrículas do Brasil sem Miséria no primeiro ano de operação do Pronatec. Para 2013, ela afirma que será possível superar 350 mil, deixando pouco mais de 380 mil vagas para serem preenchidas em 2014 e alcançar a meta de 1 milhão de brasileiros em situação de pobreza extrema - com renda per capita mensal inferior a R$ 70 - com uma certificação de educação profissional.

"Com isso abre-se para esse público perspectiva para o emprego ou para a abertura do empreendimento próprio", diz a ministra. Os beneficiários do Brasil sem Miséria são um dos três eixos do Pronatec. O programa operacionalizado pelo Ministério da Educação (MEC) prevê a criação até 2014 de um total de 8 milhões de inscrições em cursos técnicos com carga horária mínima de 800 horas/aula para quem cursa ou é formado no ensino médio regular, e também em programas de formação profissional inicial e continuada (cursos FIC), com um mínimo de 160 horas/aula para beneficiários do seguro-desemprego e do Brasil sem Miséria.

À ocasião do lançamento do Pronatec, em outubro de 2011, o Ministério do Desenvolvimento Social articulou com o MEC e o Sistema S a criação de cursos específicos para o público do Brasil sem Miséria e em linha com a demanda econômica regional. O cardápio acadêmico oferece 332 tipos de cursos em 12 áreas de atuação, como gestão e negócios, informática, segurança, turismo hospitalidade e lazer. Entre os cursos mais procurados pelos alunos do Brasil sem Miséria, que têm deslocamento e lanche custeados pelo governo, estão os de auxiliar administrativo, operador de computador, eletricista, recepcionista, costureiro, manicure e pedicure, pedreiro, vendedor, pintor, jardineiro.

A ministra Tereza Campello destaca que o bom andamento até aqui da oferta de formação profissional para a população de baixa renda deve-se ao desenho de cursos bastante práticos, didáticos e essencialmente focado num público com baixa escolaridade e com pouca ou nenhuma experiência profissional. Dos mais de 15 milhões de brasileiros enquadrados no Brasil sem Miséria, mais de 50% são adultos e a grande maioria não completou o ensino fundamental. "Muitos não pisam numa escola há 20, 30 anos", pontua a ministra.

De acordo com dados tabulados pelo governo, dos 332 cursos do Brasil sem Miséria no Pronatec, 56% exigem fundamental incompleto como critério para a matrícula, 19%, fundamental completo, 22%, médio incompleto, e apenas 3% cobram o diploma de ensino médio para fechar uma inscrição. Na visão de Tereza Campello, esse quadro não é uma desvantagem. "Antes, quando o país tinha grande estoque de mão de obra, exigia-se ensino médio do trabalhador para fazer um curso técnico de pintor ou jardineiro. A situação é outra, temos que monitorar para que o beneficiário do Brasil sem Miséria não largue o curso de formação profissional no meio porque está sendo alvo de contratação de empresas."

Já para o pesquisador Gabriel Grabowski, professor da universidade gaúcha Feevale e ex-superintendente Estadual de Educação Profissional do Rio Grande do Sul, formação profissional descasada de ações para elevar a escolaridade é "apenas uma política pontual e de curtíssimo prazo". "Os pobres, para superarem sua condição, não podem ter uma qualificação profissional precária, de curta duração. Precisam de educação básica de qualidade, oportunidades de renda e emprego, amparadas por políticas de assistência social e saúde. Políticas públicas de emancipação social devem ir além das necessidades emergenciais. A qualificação é necessidade emergencial, mas é insuficiente para promover a cidadania efetiva", defende.

Grabowski também argumenta que o mercado está cada vez mais exigente em relação à qualificação profissional e à formação geral do trabalhador. "Hoje, com todas as tecnologias aplicadas a todos os ramos produtivos, é cada vez mais importante uma educação consolidada. A Petrobras, por exemplo, sofre muito para achar pintores capacitados. Como um semianalfabeto vai ler um manual de uma tinta especial para determinado equipamento e fazer os cálculos necessários para a mistura dessa tinta?", pergunta o acadêmico.

A ministra Tereza Campello esclarece que os alunos do Pronatec do Brasil sem Miséria antes dos cursos participam de oficinas sobre mercado de trabalho e as profissões contempladas nos programas acadêmicos. Além disso, as aulas práticas são complementadas por lições de reforço de português e matemática.

 

Bolsista está orgulhoso por estudar em "escola arrumada"

Márcio Rodrigues da Silva Júnior, morador de Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo, é um dos quase 20 mil beneficiários do Brasil sem Miséria no Estado de São Paulo que ganharam do governo federal vaga em um curso técnico de curta duração, ação que faz parte do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Desde o começo de novembro do ano passado, todos os dias ele levanta às 4 horas da madrugada para pegar o primeiro trem, pouco antes das 5 horas, em direção ao centro da capital paulista. Depois de duas baldeações e de chacoalhar por quase três horas em vagões já lotados, o garoto de 19 anos chega ao Senai do Ipiranga em tempo para as aulas, práticas e teóricas, do curso de mecânica, manutenção e instalação de aparelhos de climatização e refrigeração.

Na oficina, em meio a dezenas de variados tipos de refrigeradores e cabines frigoríficas com tubulações e motores expostos para serem "dissecados" pelos alunos, Márcio fala com um sorriso estampado no rosto sobre o orgulho de estar ali, numa "escola arrumada e com professores legais". "O colégio lá em Franco da Rocha é muito bagunçado e a galera não se interessa. Aqui a aula é boa, todo mundo estuda. Tem que estudar porque é difícil", conta. Ele também faz questão de contar que Luiz Inácio Lula da Silva estudou no mesmo Senai, mas prefere a presidente Dilma Rousseff. "Ele [Lula] fala muito."

O curso de três meses do Pronatec acaba na próxima semana e Márcio planeja seguir se capacitando. Diante do complicado universo de cálculos de precisão dos fluídos e gases usados na refrigeração de ambientes e produtos, ele sabe que o que aprendeu pode ser pouco para a exigência do mercado. Mas trata-se de um primeiro passo importante: "Já estou vendo as vagas que têm no mural aqui do Senai. Tem muito trabalho para mexer com refrigeração e ar condicionado. Acho que vou conseguir alguma coisa como auxiliar", espera o garoto.

Com o futuro salário, Márcio quer ajudar a comprar "as coisas de casa" e fazer um curso técnico mais longo também na área de climatização. Aluno do segundo ano do ensino médio, ele trabalhou como empacotador de supermercado, mas está desempregado há um ano e meio e quer voltar ao mercado para "melhorar as condições de vida" da mãe, que é faxineira, e do irmão mais novo, de 15 anos. Se sobrar alguma coisa, ele já pensa em economizar para comprar uma casa e casar com a atual namorada, que conhece desde a infância.

Os professores do Senai Ipiranga que conversaram com a reportagem disseram que o mercado de trabalho para técnicos e especialistas em refrigeração e climatização está bastante agitado. "Falta gente com competência tanto para o manuseio dos aparelhos como para a parte de manuteção. Quem faz um curso e se dedica só não consegue emprego se não quiser", contou um professor, pedindo para não ser identificado.

 

Fonte: Jornal da Ciência com VE

 

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