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Crise

Análise da Pintec

quinta-feira 6 de abril de 2017, por Alampyme

Esforços em inovação nas empresas refletem contexto recessivo e dificuldades estruturais do país

Pouco mais de um terço das empresas no Brasil realizaram esforços em inovação entre 2012 e 2014, segundo a última Pesquisa de Inovação realizada pelo IBGE, a Pintec 2014, divulgada em dezembro. Entre as 132.529 empresas componentes da pesquisa – que tem por objetivo mapear o estado da inovação no Brasil em bases comparáveis com outros países –, 36% fizeram algum tipo de esforço em inovar em produtos ou processos. Esse percentual, chamado de taxa geral de inovação tecnológica do período, manteve-se praticamente estável frente ao triênio anterior (35,7%), mas ficou ainda abaixo do observado entre 2006 e 2008 (38%). “A taxa de inovação da última Pintec não é a desejável, mas já era esperada, reproduzindo o cenário de crise presente a partir de 2008”, afirma o coordenador da Pintec Alessandro Pinheiro.

Para Pedro Wongtschowski, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e presidente do Conselho de Administração da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), “apesar de importantes iniciativas privadas e públicas vigentes antes de 2015, como a Mobilização Empresarial pela Inovação, o Sistema Indústria, o financiamento do BNDES para a implantação da estrutura dos Institutos Senai de Inovação e a criação da Embrapii, os resultados são insuficientes e preocupam: a indústria precisa realizar mais esforços inovadores e produzir mais impacto com as inovações que desenvolve”.

Em termos de dispêndios com atividades inovativas verificou-se um crescimento de 25,6%, passando de R$ 64,86 bilhões, em 2011, para R$ 81,49 bilhões, em 2014. Para se ter uma visão mais completa dos esforços em inovação empreendidos pelas empresas no Brasil é importante detalhá-los e discuti-los.

Graus de nobreza

Além dos valores investidos, as empresas consultadas pela Pintec, dos setores industrial, de serviços selecionados e de eletricidade e gás, fornecem informações indicativas do perfil qualitativo de seus esforços, como as formas de alocação dos investimentos, se as inovações foram de produto ou processo e se representaram novidade apenas para a empresa, para o mercado nacional ou para o mercado mundial. “São diferentes ‘graus de nobreza’ das inovações, a serem considerados em conjunto com os montantes investidos”, diz Pinheiro.

Entre as diversas formas de investimento em inovação, a que recebeu maior volume de recursos em 2014 foi Aquisição de máquinas e equipamentos (41,1%, ou R$ 33,5 bilhões). Em seguida, vieram as Atividades internas de P&D (30,3%). O volume de investimentos em P&D das empresas passou de R$ 19,9 bilhões, em 2011, para R$ 24,7 bilhões, em 2014.

Quanto à participação dos gastos em P&D sobre o PIB brasileiro, o percentual cresceu de 0,59% para 0,61%. De acordo com Pinheiro, “é um percentual baixo se comparado aos de países como Suécia (2,11%), Alemanha (1,95%) e França (1,45%), e foi influenciado pela retração do PIB industrial, o que não é positivo, dada a característica da indústria de liderar o desenvolvimento tecnológico”. Houve ainda uma mudança na composição do investimento empresarial em P&D em relação ao PIB, com queda do investimento na própria empresa (de 0,51% para 0,45%, de 2008 a 2014) e ampliação do percentual dedicado à aquisição de P&D de outras instituições (de 0,08% para 0,16% entre 2008 e 2014).

Para a professora Carolina Bagattolli, do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), “a aquisição externa de P&D costuma atender mais a necessidades operacionais e pontuais das empresas, com menores implicações sistêmicas e de longo prazo. Por isso, essa mudança parece denotar um menor esforço empresarial no terreno inovativo mais ‘nobre’ e, provavelmente, um menor potencial dinamizador”. Da perspectiva de Luiz Mello, vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), o fluxo de conhecimento no mundo globalizado tem um importante papel para a inovação. “Ter P&D externo é, portanto, positivo, mas não se pode abrir mão do P&D interno”, pondera Mello.

A pesquisa de inovação mostrou também que a relação de dispêndios em atividades inovativas sobre a receita líquida de vendas das empresas caiu discretamente, de 2,56% para 2,54% entre as duas últimas edições. No segmento industrial a queda tem se pronunciado desde 2008, tendo atingido a marca de 2,12% de dispêndios em atividades inovativas sobre a receita líquida em 2014, o menor patamar da série histórica da Pintec.

No contexto recessivo dos últimos anos, além da retração dos investimentos em atividades inovativas sobre a receita, as empresas industriais vêm reduzindo também as ações em cooperação. Segundo a Pintec 2014, 14,3% das empresas inovadoras na indústria cooperaram com pelo menos um parceiro (cliente, fornecedor, outra empresa ou instituição de pesquisa), enquanto na Pintec 2011 foram 15,9%.

De modo geral, as empresas seguem privilegiando inovações em processos e poucas lançaram novidades de alcance mundial. Entre as 24.498 empresas que inovaram em produto no triênio 2012-2014, 76,87% declararam que as inovações lançadas representaram novidade apenas para a empresa, enquanto 2,43% disseram que suas inovações foram novas para o mercado mundial. Das 42.572 empresas inovadoras em processo, 90,57% inovaram apenas para si, contra 0,8% para o mercado mundial.

Destaques

A taxa de inovação cresceu de forma significativa na indústria extrativa, de 18,9% para 42%, o que não foi acompanhado pelas empresas dos demais segmentos. Na indústria de transformação, que perfaz 87% da amostra, a taxa sofreu uma elevação marginal (de 35,9% para 36,3%), enquanto nos serviços de eletricidade e gás caiu de 44,1% para 29,2%.

Quanto aos dispêndios setoriais em inovação, o setor de telecomunicações destacou-se, respondendo por um quarto dos R$ 81,5 bilhões investidos e passando de 3,66% da receita, em 2011, para 9,99%, em 2014. “Esse resultado foi atípico e influenciou muito a pesquisa”, comenta Pinheiro. “Foram investimentos em tecnologias 3G e 4G que guardaram forte relação com os grandes eventos sediados no Brasil no período recente”, justifica. Seguem também com volumes importantes investidos em inovação os setores intensivos em tecnologia dominados por multinacionais, como química, farmacêutica e equipamentos de comunicação.

A última Pintec trouxe também novidades no levantamento de informações: pela primeira vez mensuraram-se as empresas beneficiadas por compras públicas de produtos inovadores; métodos estratégicos (informais) para proteção das inovações; e o número de mulheres atuando como pesquisadoras nas empresas. As compras públicas beneficiaram 2% das empresas inovadoras no Brasil (1,4% das empresas industriais), um número ainda reduzido, segundo o coordenador da Pintec. No que diz respeito aos métodos estratégicos de proteção das inovações, a pesquisa apurou que 17% das empresas inovadoras utilizaram pelo menos um deles, sendo o principal o segredo industrial (10,7%).

A contabilização das mulheres pesquisadoras nas empresas inovadoras atendeu a uma demanda do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Segundo a Pintec 2014, as mulheres representaram 20,85% dos 94 mil pesquisadores das empresas inovadoras, sendo 22% na indústria, 18,2% em serviços selecionados e 16,1% em eletricidade e gás. “Elas se concentram em setores fabricantes de produtos destinados predominantemente às mulheres, como Farmoquímico (75,3%), Produtos de limpeza, cosméticos, perfumaria e higiene pessoal (66,2%), Farmacêutico (60,2%) e Confecção (58,8%)”, diz Pinheiro.

Bagattolli lembra que “embora as mulheres já sejam, há alguns anos, a maioria entre os mestres e doutores formados, a quantidade de homens no mercado de trabalho ainda é superior e a desigualdade de rendimento entre os gêneros permanece”. Segundo Mello, a predominância masculina relaciona-se com a baixa formação de mulheres engenheiras no País. “O aumento do número de mulheres na engenharia deverá levar ao crescimento da proporção de mulheres dedicadas a atividades inovativas nas empresas”, aposta o vice-presidente da Anpei.

No que diz respeito ao apoio governamental para a inovação nas empresas, houve um aumento de 5,8 pontos percentuais entre as duas últimas edições da pesquisa: 40% das empresas inovadoras receberam algum apoio do governo para suas atividades inovativas em 2012-2014. O financiamento governamental para aquisição de máquinas e equipamentos foi o principal mecanismo utilizado, atingindo 29,9% das empresas inovadoras. De acordo com Wongtschowski, há vários pontos sensíveis nos investimentos públicos em apoio à inovação. “O volume de recursos é muito importante e a instabilidade das regras é um elemento complicador, pois eleva muito os riscos dos investimentos em inovação”, esclarece.

Em relação aos entraves à inovação, os principais, segundo a Pintec 2014, foram econômicos. A importância dos elevados custos como obstáculo à inovação foi considerada alta ou média por 86% das empresas inovadoras na indústria e 88,5% das empresas que inovaram em serviços. No setor de eletricidade e gás o maior gargalo foram os riscos, segundo 69,9% das empresas inovadoras.

Mello concorda que os principais responsáveis pelo baixo desempenho inovativo das empresas no Brasil são fatores econômicos, mas não só eles: “basicamente as altas taxas de juros, entraves regulatórios e problemas na área da educação”. Já Bagattolli aponta como condicionantes das modestas ações empresariais em inovação no Brasil os obstáculos estruturais do País – como a alta concentração de renda, os altos índices de desemprego e a informalidade – e o contexto macroeconômico. Ela ressalta que “decisões governamentais sobre parâmetros importantes para a inovação, como taxas de câmbio e juros, dependem de fatores (e esperam cumprir com objetivos) que vão muito além da área de Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI)”.

Perspectivas e caminhos

Dado o contexto brasileiro atual, o que podemos esperar nos próximos anos para os esforços e resultados em inovação das empresas no Brasil? Segundo Wongtschowski, “é difícil imaginar que as empresas, submetidas a uma conjuntura tão desafiadora (associada à macroeconomia e a sucessivas quedas de produção e vendas), sejam capazes de fazer esforços maiores em inovação”. Para ele, as empresas precisam ter sinais claros de que as políticas de CTI serão permanentes, com estímulos públicos independentes da conjuntura macroeconômica, pois “os investimentos em tecnologia e em inovação são de longa maturação e não podem sofrer interrupções sem custos muito elevados”.

Bagattolli projeta um cenário sombrio, fruto da combinação de retração do governo federal na área de CTI, contexto macroeconômico delicado e políticas equivocadas. “Mais do que eleger setores para estimular, haveria que se pensar em áreas-problemas que precisam de solução no Brasil e indagar de que forma o nosso potencial tecnocientífico poderia ser mobilizado para superar os graves problemas sociais que nos afligem”.

As expectativas de Pinheiro são também desfavoráveis, dado que 2015 teve desempenho pior que 2014. “Se 2017 não salvar o triênio, a próxima Pintec poderá trazer os piores resultados da história”, conclui. Já Mello acredita em mudanças positivas e no crescimento de instituições de apoio à inovação. “Sou patologicamente otimista, acredito no Brasil e acho que o caminho é inovar, a partir de avanços na educação, estímulos setoriais e ajustes regulatórios”.

Imagem: O coordenador da Pintec, Alessandro Pinheiro, apresenta os resultados da pesquisa, entre os quais a taxa geral de inovação tecnológica nas empresas: 36% entre 2012 e 2014

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