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A misoginia marcha ao lado

segunda-feira 24 de junho de 2013

As ondas recentes de protestos no Brasil vêm confundindo não apenas o governo. O que começou como uma manifestação concreta e homogênea se transformou em um amálgama de críticas e ideologias, abrindo espaço para a infiltração de opiniões violentas e perigosas. As passeatas, que originalmente serviam o propósito de reivindicar os direitos dos desfavorecidos, se misturaram a um movimento intolerante contra minorias. Esse quadro implica sérias complicações à participação feminina nas manifestações, uma vez que as mulheres agora precisam se preocupar com agressões e misoginia dentro do próprio movimento.
Há muitos depoimentos de mulheres agredidas ou violentadas nas manifestações ao redor do país. Testemunhas oculares, com direito a vídeos amadores postados no YouTube, não deixam mentir: as mulheres precisam temer não apenas a repressão policial, mas também a misoginia e a intolerância dos próprios manifestantes. São dezenas os relatos de abuso sexual, tanto por policiais armados quanto por manifestantes homens. Várias mulheres, por conta de qualquer suspeita de pertencer a algum partido político de esquerda, sofreram agressões físicas. Além da violência direta, os manifestantes portavam uma quantidade exorbitante de cartazes machistas, acompanhados de piadas e gritos hostilizando as mulheres.
A misoginia e o repúdio à sexualidade feminina são evidenciados por meio de uma série de insinuações esdrúxulas. Nessas passeatas, manifestantes mostraram que crimes como o desvio de verba e a corrupção, por exemplo, são tão graves e inaceitáveis que podem ser comparados à prostituição feminina. Um rapaz carregava um cartaz alegando que a tarifa do ônibus era muito cara, porque nem a mãe do prefeito, enquanto objeto sexual, valia R$ 3,20. Outros chamavam a presidenta de “sapatão” como argumento político contra sua regência. Isso tudo não é só uma maneira de sequestrar a figura feminina e não se trata meramente de um moralismo sexual hipócrita; isso é misoginia, violência especialmente voltada para a mulher.
 A intimidação física contra as mulheres é ainda mais alarmante do que as expressões discursivas violentas. Inseridos na multidão, muitos homens selecionam especificamente mulheres para agredir. Além dos manifestantes, a própria polícia pesa a mão na hora de reprimir cidadãs mulheres, que além de sofrerem golpes e tiros de borracha, são também alvos frequentes de estupro e violência sexual. A normatização da violência contra a mulher e a certeza da impunidade, aliadas à suposta fragilidade feminina vista por esses homens, é uma verdadeira arma de guerra para intensificar o medo e impedir a livre expressão de opiniões. Sob essa mentalidade, basta intimidar uma mulher e ameaçá-la sexualmente para silenciar suas idéias. Nossa cultura não encoraja a mulher a se defender e até satiriza as denúncias de violência sofrida.
A violência contra a mulher está enraizada profundamente na história, mas não é preciso resgatar fatos para compreendê-la. A misoginia é a nossa própria cultura e faz parte do nosso modus operandis. O machismo é uma das engrenagens principais do nosso sistema social e político; todos os integrantes da sociedade, assim como todos os seus frutos, possuem influências misóginas. É pertubador: nenhuma interação social, seja essa um protesto, uma conversa rotineira ou até mesmo a leitura de um livro, se encontra totalmente livre do machismo e da misoginia.
Apesar de estar em todo lugar, a misoginia não é um aspecto natural ou espontâneo da sociedade, mas sim uma ferramenta de controle instalada no sistema. Ser mulher não é trabalhoso apenas pela ausência de direitos e pela violência; é difícil também porque odiar mulheres é considerado normal e fundamental. Mas do mesmo modo que o machismo e a misoginia podem ser difundidos e introjetados, também é possível rejeitá-los e desenvolver autonomia sobre as próprias idéias. Preste atenção a sua volta e tome cuidado com a realidade. Enquanto a violência e a misoginia continuarem a se disseminar na sociedade, não haverá espaço realmente seguro para as mulheres.
Fonte: por Jarid Arraes para Mulher Dialética

 

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